Lésbica.
Porque para falar de orgulho, é preciso nomear o objeto.
Minha avó costuma dizer que eu sempre fui “muito cheia de certeza”. Vira e mexe, escuto minha mãe reclamar de alguma teimosia minha e a voz de dona Nilva se sobrepõe com um ‘mas Maria nasceu assim, sem dúvida do que ela é. Nasceu Maria, e que bom que vai morrer desse jeito’. Mal sabe ela que, na verdade, eu nasci foi com dúvida de tudo.
Não entendia porque o mundo era do jeito que é. Quando fiz meu primeiro grande amigo, lembro de querer fazer com ele tudo o que sempre fiz com minhas amigas. Gabriel passava meu gloss da moranguinho, me pedia para eu tentar fazer penteados desastrosos usando minhas xuquinhas coloridas e sempre deixava eu ser o pai nas nossas brincadeiras de casinha. Os adultos ao nosso redor olhavam feio, os outros meninos enchiam a boca para falar que ele queria ser uma garota — como se esse fosse um destino terrível, um crime mesmo — e minhas professoras ficavam sem saber como, ou se precisavam de fato, interferir nas nossas brincadeiras.
Mas tudo isso era irrelevante. Nesses momentos em que estávamos eu e ele, não sentia que precisava explicar nada. Gabriel sabia. Não sei quanto amor realmente cabe no peito de uma criança de cinco anos, mas sei que amei. Amei forte, porque podia ser eu. Porque dei a sorte de me bater com quem sabia o que eu era antes mesmo de mim, e agora, podia ser junto com alguém.
Infelizmente, eu gostar ou não de como as normas de gênero funcionam não anula a existência delas. Depois de meses de perturbação, as coisas mudaram. Gabriel passava o recreio fingindo que gostava de correr atrás de uma bola na quadra escura do colégio, e eu voltei a ser invisível entre minhas amigas de novo. Eu emprestava meu gloss para elas, fazíamos penteados mirabolantes, e eu ainda era o pai nas brincadeiras de casinha. Mas não tinha ninguém me vendo. Na verdade, me sentia disfarçada, como se a qualquer momento eu pudesse ser descoberta por um crime que eu nem sabia qual era ao certo.
Demorou para eu perceber que, de fato, eu era diferente das minhas coleguinhas de escola. Nunca foi nada escancarado. Na verdade, acredito que quem a gente é se mostra nas sutilezas mesmo. Quando minhas barbies se beijavam, era porque eu queria que a barbie loira beijasse a barbie morena. Quando as barbies das minhas amigas se beijavam, era porque uma delas era a barbie e faltava um boneco homem para fazer o Ken. Escrevendo isso, lembrei que, quando ganhei um boneco Ken, fazia ele ser amigo da barbie, porque ela sempre escolhia a outra boneca como namorada.
Mas a primeira vez que eu vi um casal de mulheres em carne e osso foi só em 2013, quando saiu em todos os programas de fofoca que Daniela Mercury ia se casar em Paris. Com uma mulher. Lembro de estar brincando na varanda de minha bisavó e ela comentar que “o mundo estava perdido mesmo”. Rebati na hora, cheia de coragem, que ela não podia dizer aquilo, porque era preconceito. Nem sei quem me mostrou essa palavra para início de conversa, mas a mini-Maria sabia mais do que eu como é não ser vista. Lembro do olhar de espanto nos olhos dela, que não tinha grandes argumentos para justificar aquele comentário infeliz. E de como minha mãe riu, dizendo para eu deixar para lá.
Não deixei. Na real, isso que não me deixou. Fiquei obcecada em ver todas as notícias sobre esse casamento. Sobre pesquisar mais artistas famosas casadas com outras mulheres. Foi só aí que fiquei sabendo que tinha nome para quem era meio desviado: ‘sapatão’. E, nossa, como esse nome não me desceu bem. Primeiro, porque o termo surgiu nos anos 20, quando as primeiras feministas começaram a usar sapatos fechados e ocupar espaços públicos que antes eram reservados aos homens. Não tinha haver com a sexualidade delas, o que, para mim, era um problema. Ao mesmo tempo, me incomodava que fosse um termo associado, majoritariamente, à mulheres masculinizadas. Porque eu nunca fui uma garota masculinizada.
Até que conheci Clara, que, por associação, podia ser sapatona. Ficamos amigas muito rápido — não que seja assim tão difícil considerar alguém seu amigo aos nove anos. Fiquei encatada por conhecer uma menina que usava boné, gostava de jogar bola e fugia da maioria dos esteriótipos de gênero que você possa imaginar. Não que isso signifique algo sobre a sexualidade de alguém, mas naquela época, para mim, significava. Eu sentia que ela não se escondia. Lembro dos meninos usarem aquela palavra que ainda ficava presa na minha garganta para falar dela e Clara só me puxar para longe e pedir para eu deixar para lá. “Mas você é isso aí mesmo?” Nunca tive resposta para essa pergunta.
No domingo, eu contava os segundos para a segunda só para encontrar com ela. Queria contar tudo do meu fim de semana, queria dizer que tive saudade e que pensei nela enquanto fazia minhas barbies se beijarem. Nunca disse nada disso. Numa dessas segundas, levei ela para a “área verde” na hora do recreio para a gente dividir os doces de uma lembrancinha de aniversário que guardei o fim de semana inteiro. Na minha frente, só os cabelos ondulados de Clara me chamavam a atenção. Por um milagre, considerando o tamanho da minha escola, estávamos sozinhas no tapete de grama sintética que ficava tão escondido. Só tinha uma bala 7 Belo no pacotinho estampado. E eu deixei Clara provar a lembrança do doce na minha boca.
Ninguém nunca ficou sabendo. Esse selinho ficou guardado comigo o resto do ano — e a vontade que eu tinha de outros, também. Sei que depois de dois meses de férias em que acumulei muita coisa para dizer, cheguei na escola sem bala. Clara tinha mudado de escola sem explicação. E como eu ainda não tinha um celular naquela época, ficou por isso mesmo. Senti mil coisas. Tive raiva dela por nem comentar que essa era uma possibilidade, tive medo dos pais dela terem encontrado algum dos bilhetes que eu sempre deixava em sua mochila nas sextas-feiras para que ela lembrasse de mim nos sábados, e fiquei com uma saudade avassaladora que me acompanhou por duros meses. Claro, eu ainda tinha minhas outras amigas, mas nenhuma me via. Nenhuma para dividir saquinho de lembrancinha.
Os outros anos passaram sem grandes encontros. Com a chegada da adolescência, já não tinha mais barbie para se beijar. Me sentia sufocando a palavra que só me incomodava cada vez mais. Tentando me entreter com as conversas das minhas amigas sobre beijar na boca, ir em festas, gostar de qualquer garoto que fosse. O recreio começou a ser uma tortura e eu queria mais do que tudo que o final de semana chegasse. Me obriguei a escolher um garoto qualquer para dizer que gostava dele e poder me entrosar minimamente nas conversas das outras garotas. E era tudo tão chato.
Quando finalmente tive coragem suficiente para me assumir bissexual, que foi o rótulo que me cabia com meu pouco entendimento de mim mesma, achei que isso resolveria meus problemas. Só não esperava que isso causaria o efeito contrário. Acabei caindo no não-lugar que é reservado para quem não está, necessariamente, em uma das pontas do desejo. Para os garotos da minha idade, eu era como um deles por gostar de mulheres, e para as garotas, eu com certeza deixaria de gostar de mulheres eventualmente. Ainda que eu sempre deixasse claro que preferia sair com a pior mulher do mundo do que beijar o melhor homem. O que, pensando agora, era mais um sinal de que eu não estava muito certa da minha sexualidade.
Tive sorte da primeira pessoa que eu namorei se identificar — pelo menos, por boa parte do nosso relacionamento — como uma mulher. Podia escrever livros inteiros sobre como me senti nesses quatro, longos, anos. Tinha sanado minhas dúvidas. Mas nunca questionei meu desejo por mulheres. Disso, sempre fui certa mesmo. Passei quatro anos em um conforto absoluto dentro da minha caixa. E por mais clichê que seja, finalmente compreendi a euforia das minhas amigas em beijar na boca, sair para o cinema e andar de mãos dadas na rua. Ainda que soubesse que era diferente, porque andar de mãos dadas com outra mulher na rua era correr o risco de ouvir aquela palavra que ainda me perseguia.
E ouvi. Lembro de reagir de uma maneira tão brusca que nem me reconheci. Lembro de passar a madrugada chorando e sendo consolada por minha primeira namorada, que definitivamente estava mais acostumada com isso do que eu. E de como ela explicava que eu nem era isso mesmo, porque, no final do dia, eu ainda gostava de homem. Me resguardei nessa ideia por muito tempo. Não posso ser sapatona, porque gosto de homens. Porque ainda saio de vestido e uso gloss com gosto de morango. Então, não importava.
Enterrei essas conversas no segundo em que comecei a namorar um homem. Esqueci completamente todas as partes ruins de namorar uma mulher — que nada tem haver com o relacionamento em si. Gozei dos privilégios de um relacionamento heterossexual quando já era adulta. E acho que devo muito ao tempo por essa não ter sido minha primeira experiência romântica, porque, na adolescência, é fácil se impressionar com o simples. Nunca ouvi nada de ruim sobre andar de mãos dadas com um homem na rua, meu namorado nunca foi reconhecido como meu “amigo” nos almoços de família, nosso sexo nunca foi tratado como ‘exótico’ na mesa de bar.
O problema é que existe um privilégio que eu perdi rápido demais: a certeza. Mesmo nos melhores dias, a dúvida me consumia numa espiral que nunca levava a lugar algum. E juro para você que tiveram dias em que eu rezava para que alguém me nomeasse para ver se aquela palavra seria mais digestível. Saboreava as letras escondida, na esperança delas dissolverem ainda na língua para eu engolir com gosto.
Sei que depois de vinte um anos, estando sozinha, experimentei me nomear do meu jeito, sem pressa. Primeiro, provei a palavra pura, e senti descer rasgando a garganta como se fosse cachaça pura. Acho que se provasse com cachaça, inclusive, desceria escorregando. Mas depois, adocei meu café com ela. E compartilhei com poucas amigas, umas que gostavam do café mais doce e outras que só bebiam descafeinado. Tudo foi ficando mais tragável.
Sempre fui péssima de datas. Não vou saber te dizer o dia, ou mesmo o mês, que isso aconteceu. Só sei que acordei numa manhã, ensolarada ou chuvosa, passei o café de sempre, peguei o ônibus de sempre e cheguei para ver as aulas de sempre. Nesse dia, vi as pessoas de sempre, estudei a matéria de sempre, bebi mais um café com leite entre as aulas como sempre fazia. Tudo igual. Inclusive eu, quando comentei com uma dessas amigas de sempre “é, lu. Eu sou lésbica mesmo”. Como sempre fui.
Simplifiquei muita coisa, porque, de fato, me aceitar não foi nada fácil. E tem dias em que eu deito com medo de acordar engasgada de novo, apesar de saber que isso não vai acontecer. Mas, ao contrário da narrativa que tentam vender para a gente de que ‘ser LGBTQIAPN+ é só sofrer’, me nomear — corretamente — me trouxe de volta a sensação de ser vista que eu tive a sorte de ter bem cedo. Também não quis me demorar nas angústias que passei nesse meio-tempo, porque esse é o primeiro mês do orgulho que eu passo do jeito que minha vó me vê: cheia de certeza de mim.
Lésbica.
