Liberdade divina
Tem uma reza simples e curta dentro do catolicismo que aprendi com minha bisa quando eu ainda tinha 3 anos, na época em que morei com ela. Acho que o pai nosso era complexo demais para mim. Ainda é. Era uma oração para o anjo da guarda, quem quer que ele seja. Sempre a recitava fielmente antes de dormir, seguido de um “em nome do pai, do filho e do espírito santo, amém”. O texto em si já não me interessa muito, mas em um dos trechos, é pedida a “piedade divina” para essa entidade. Pesquisando os versos, percebi que sempre falei “liberdade” no lugar de “piedade”. Sei que não fiz de propósito, realmente passei 15 anos da minha vida achando que era liberdade divina. Mas agora, adulta, mesmo sabendo que não é isso que devia dizer, vou continuar clamando por liberdade, que é o que faz sentido.
Existe um grande problema semântico aí, porque piedade pode significar duas coisas: misericórdia, ou capacidade de empatia com o sofrimento alheio. Em contextos religiosos, piedade e misericórdia se embolam em dupla-hélice para grudar no DNA de seus fiéis. Sinceramente, não acredito que ninguém mereça piedade, tampouco acho que Deus seja misericordioso. Não digo isso só porque o mundo tem muita miséria independente do canal que você escolha assistir durante o almoço, mas também porque piedade implica numa dívida. Eu não estou devendo. Não mais.
Perdi incontáveis noites implorando para esse Deus que me fizesse menos de tudo. “Menos grande”, menos deprimida, menos apaixonada pelas mulheres que me cercam. Eu sentia que tinha tão pouco, e ainda assim, queria menos. Lembro de tornar meu quarto um confessionário mesmo. De ajoelhar por horas e inundar meus arredores até que minhas lágrimas se transformassem em iodo, na esperança delas curarem as feridas em meus joelhos. Quando você é uma criança e pensa que Deus te odeia, sua cabeça vai longe. Quando você é criança e as pessoas te dizem com todas as palavras que Deus te odeia, ela te engole.
Lembro de frequentar todos os centros religiosos — cristãos — possíveis. E ouvia sobre como Deus era bom, como ajudava as pessoas a superarem adversidades, como era uma “luz” no fim do túnel. E quis isso. Quis acreditar. Quis me agarrar em alguém que nunca iria embora e, finalmente, me puxaria dos pensamentos que engoliram minhas tardes enquanto as meninas da minha idade brincavam de barbie. Ou achei que queria. Foi nas igrejas que entendi que amor não é de graça. Nunca. Sim, Deus te ama, mas odeia quase tudo que torna você quem você é. Quem eu era. Quem eu ainda sou, quando encontro tempo.
Então, eu tentei mudar, como quase todo mundo faz. Minhas mudanças foram internas, no entanto. Fui voltar a usar vestidos e aprendi a fazer, alguma, maquiagem já adulta. Mas cerceei todos os desejos que eu tinha até não sobrar nem a chance de querer. Passei uma adolescência inteira com fome. Uma fome que dói a boca do estômago e se revira inteira até que você coloque para fora até suas entranhas — porque, no fim, é só o que tem para botar. Quando gostar de homens ainda era uma certeza incontestável, eu pedia todos os dias para só encontrar bons homens, para que nenhuma mulher se tornasse motivo dos meus castigos.
Era de uma inconsistência tamanha, porque eu via todas elas gigantes. Não como amigas, eu queria tocá-las e amá-las com uma urgência inexplicável. Até escolher um cara para colocar num pedestal na tentativa de me salvar. Porque Deus não podia me odiar. Não por isso. Não quando eu tinha a “opção” de resolver as coisas. O problema é que essa não era a única coisa. Como alguém péssima de cubo mágico, “solucionar” minha sexualidade usando um homem de tapa-buraco me fez perceber que Deus não gostava de outras coisas em mim.
Em um dos provérbios — e vou ficar devendo o número, porque são muitos — Salomão comenta sobre as sete coisas que o senhor abomina. Língua mentirosa é uma das primeiras. A esse ponto, tudo que eu fazia era mentir. O tempo todo. Mentia que estava tudo bem mesmo, que só me sentia cansada — o que, a depender de como você veja, não era bem uma mentira — que nem percebi os arranhões nas minhas coxas, que amava aquelas garotas só como amigas. Eu tentei levar como uma experiência teatral por um bom tempo, até perceber que não adiantava de nada eu fingir ser o que não era se Deus não iria amar nem outra versão de mim.
Então, parei de buscar por essa piedade. Não queria que Deus me perdoasse por ser eu. Não suportava a ideia de que eu teria um quartinho menos abafado no inferno por eu pedir desculpas pelo imperdoável. Deixei de acreditar em Deus quando seu amor, para mim, se tornou uma prisão. Parei de rezar, parei de ir para as missas com minhas avós, parei de pedir proteção a quem me fez sentir como uma impostora esse tempo todo. Vez ou outra, me peguei rezando para ele me levar com ele para onde quer que fosse.
Até que, fora desses centros, entendi que as coisas não eram assim tão complicadas. E fui me tornando eu. Eu mesmo. Sem aquele papo meio psicótico de “se ame, você é incrível”. Mas fui aprendendo que podia tudo. Posso. Posso ver mulheres com olhos de amor, e desejo, posso gozar das coisas descaradas que a vida oferece, posso tomar para mim só o que faz sentido. Por isso, hoje clamo por essa liberdade divina. Porque sei que Deus me ama livre, e chora quando eu me visto.
P.S.: esses tempos, esbarrei com um poema que escrevi mais ou menos sobre isso em um dos livros que li ano passado. Eis a transcrição (porque minha letra estava uma negação, e ainda não aprendi a anexar as fotos por aqui):
“Oração pra seu Deus.
Vim buscar as horas gastas com oração
Tomar de volta as noites perdidas implorando pra ser só confusão
Arrancar desse altar de deuses sensíveis o meu direito de amar
— Meu Deus, que eu nunca me apaixone por uma menina.
— Meu Deus, que eu só conheça garotos perfeitos.
— Meu Deus, que o meu coração não me traia nos 45 do segundo tempo e pule do meu peito para se agarrar na barra do vestido dela.
Danem-se os filhos da época
É a seca dos rios de regime fluvial que eu alimentei por todos esses anos
— Meu Deus, tomara que ela goste de mim também.“
