Rochas
De vez em quando, Deus me tira a poesia. Olho pedra, vejo pedra mesmo. Adelia Prado quem escreveu isso. Esses dias, tenho visto pedras demais. Pedras suficientes para me rodear em um forte digno de cenários medievais. Minhas batalhas, no entanto, entram em anacronismo ao me invadirem em um cavalo de tróia. Olho pedra, quero ver pedra, mas o que chega é rocha.
Caso você não saiba, toda pedra é um pedaço de rocha, mas nem toda rocha é uma pedra. Uma rocha é um agregado natural que forma a crosta terrestre. Ironicamente, meus agregados parecem cada vez mais despedaçados. Como se esses 10 anos tentando juntar todos os pedaços da minha vida não tivessem valido de nada. Talvez não tenham valido mesmo. Só percebo isso nos dias ruins, quando caminho descalça e escorrego no molhado do meu sangue, que só escorreu por causa de um desagregado que me furou a sola do pé.
Por muito tempo, finjo que não estava ali. Por muito tempo, nem percebo que estava. Talvez porque o tempo entre o fechamento de uma ferida e a abertura de outra é muito curto para eu sequer saber que algo em mim curou ou se abriu. Na quarta-feira, senti um arranhão entre os dedos. Coisa pouca, que dá e passa. Na quinta, dei azar de tropeçar em um conjunto de britas. Ardeu, e muito, mas queria chegar mais longe. Na sexta, desejei ser rápida o suficiente para que aqueles malditos fragmentos não conseguissem me alcançar. Nunca fui muito boa de corrida, ainda que viva fugindo.
Tentando fugir. No fim do dia, quando acho que estou segura, as paredes do meu quarto, que sempre acreditei serem brancas, me rodeavam em um vermelho vivo — ou morto. O cheiro fresco era quase entorpecente, mas prender a respiração nunca foi uma opção viável. Não. Sabia que respirar pela boca era pior, porque o gosto ferroso que senti na ponta da língua naquela madrugada de sábado deixou uma sede inexplicável.
Vira e mexe, me pego tentando beber só uma gotinha. Tentando me convencer de que isso seria o suficiente para matar uma vontade de anos, décadas, e talvez até séculos que eu possa ter vivido antes daqui. Meu cavalo de tróia. O que eu mesmo monto. Eu mesmo espero que eu deixe essa coisa que parece tão inofensiva entrar em meus muros de pedra só para descobrir que, quando sua própria cabeça não te quer viva, treinar um exército não é a coisa mais difícil do mundo.
O problema é que, ainda que meu cérebro queira me convencer a abrir os portões do forte, algo em meu peito sabe o que está por vir. Porque já veio. Já recebi mais forças armadas do que gostaria de admitir. Do que provavelmente irei admitir um dia, caso alguém me pergunte sobre estratégias de luta. Acho que essa é a arte da guerra: saber reconhecer quando perdeu. E eu já estive muito vencida.
Da última vez, esses gladeadores fizeram questão de deixar marcas em todos os lugares que só eu podia ver. Sairam minando tudo o que eu tinha construído por dois, longos, meses como se não fosse nada. Em minha única torre alta, as cores se misturavam como um quadro de Kandinsky, ainda que os troianos não o conhecessem. Ironicamente, tudo o que sobrou foi o vazio. Uma enchente conseguiu levar as desgraças do campo, mas me tirou as graças também.
Meus amigos diplomatas tentam a todo custo me convencer que um campo vazio é melhor que uma arena de guerra. Não sei como explicar que, ainda que tudo que veja seja vermelho, a sensação de perceber aqueles soldadinhos empilhados invadindo minhas certezas ainda é melhor do que o nada. Essa tal paz que as bandeiras brancas te prometem não me serve. Em alguns dias, contemplo, por mais tempo do que gostaria, a ideia de abrir todos os portões e esperar que eles venham. Como servir um pedaço de carne fresca para um leão faminto.
Às vezes, eles vem mesmo. Vermelho. Por todos os cantos. Nem sempre da mesma forma. Vez ou outra, o cavalo é abandonado e só se vê a manada de homens berrando e empunhando suas espadas compradas em algum mercado de esquina por 3 reais. Com seus cabos amarelos, azuis…mas a ponta é sempre prateada. Mas sei que na maior parte do tempo não é assim. Suas últimas visitas foram quase isso mesmo, visitas.
Dessas que você convida para entrar com civilidade, serve um café e vê até onde aguenta a companhia da outra pessoa. Eles sentam na mesa um por um, com uma educação invejável. Eu sirvo os cafés, alguns com leite, outros puros. Uns nem gostam de café e só aceitam por educação. Então, enquanto esses homens, que me conhecem desde que eu tinha 12 anos, falam, meu próprio café esfria.
Esse momento se alastra por dias, e suas presenças me cansa cada vez mais. Ao redor da mesa, as pedras se amontoam rapidamente sem que eu nem perceba. Essas não são vermelhas. Mas seu volume exorbitante me pesa os ombros. Devagar, as marcas vão firmando em meu muro, que só sobe. Até que gregos e troianos se desentendam e derrubem tudo que – eu achei – construímos juntos.
Assim, eles vão embora. Nesses dias, a enchente não vem. Meus amigos diplomatas barganham minha presença, numa tentativa de que eu abra o portão para eles também. Nunca abaixo a guarda. No chão, os desagregados se confundem com as pedras – que não são rochas. São tantos que é impossível mapear onde posso ou não pisar, por isso, passo mais uma tranca na porta.
Nos últimos meses, venho colecionando as pedras sujas de sangue que seguram meus pés numa tentativa de não paralisar. No fim dos dias, empilho uma por uma e as observo atentamente. Essa manchou no meu pescoço, num dia em que achei que ficar deitada na rocha quente poderia ser mesmo uma boa ideia. A outra me rasgou as costas, expondo minhas entranhas sem que eu soubesse. E essa, ah, essa foi eu mesma que usei. Quem sabe assim esses agregados entendem que sou eu quem estou no cavalo.
Olhando pra trás, percebi o rastro de pegadas vermelhas que deixei por tantos anos. E vi a tinta fresca se misturar com a seca nas mesmas voltas. Me fechei nesse forte há tanto tempo que já nem lembro mais se é bom mesmo. A parede é de pedra, vejo pedra mesmo. Mas o chão…o chão é rocha.
